Por José Roberto Luchetti
Há exatos 10 anos uma jovem ativista sindical e líder acadêmica, Beth Breslaw, fez um curioso experimento pelas ruas de Nova York, nos Estados Unidos. Ela decidiu não ceder mais espaço a ninguém que cruzasse o seu caminho pelas calçadas da cidade. A ideia surgiu depois de uma conversa com uma amiga de que os homens eram menos propensos a ceder espaço do que as mulheres. Quando o encontro era iminente, normalmente os homens diziam: “excuse me” (com licença) e as mulheres pediam: “sorry” (desculpa).
O experimento fez tanto sucesso que Beth Breslaw foi entrevistada pela revista The New Yorker e o material reproduzido em diversas outras publicações pelo mundo, como os britânicos The Times e The Guardian. “Eu provavelmente poderia contar nos dedos o número de mulheres que esbarraram em mim e o número de homens que não o fizeram”, contou a ativista na época.
A iniciativa revelou o quanto ainda convivemos com um machismo estrutural e nem nos damos conta. Há poucas semanas, eu estava em um show da uruguaia Ana Prada, em Barra de Valizas, no litoral norte do Uruguai, e num determinado momento, antes de cantar “Soy Pecadora”, a cantora falou da importância das mulheres não terem vergonha de sentir prazer e irem atrás de seus desejos. Era nítido o constrangimento da plateia masculina, ou pelo menos, um claro incomodo na cadeira, na linha de pensamento: “onde eu me posiciono aqui?”. Na sequência, Ana Prada cantou “Los Hermanos”, gravada por Elis Regina, em 1976, porém no lugar da palavra masculina, ela cantou “Las Hermanas” e um uníssono coral feminino da plateia acompanhou a artista. Novamente o público masculino ficou entre o atônico e o lugar de desconforto.
Mas o que os dois exemplos acima têm a ver com ética e saúde? Ambos me fizeram lembrar de relatos que ouvi de médicas sobre o atendimento nos hospitais, principalmente nas emergências, onde mulheres com suspeita de infarto são atendidas com menor relevância do que os homens. Como os sintomas de um infarto são, por vezes, distintos dos homens, quando a mulher descreve dor na boca do estômago, tontura, náusea etc. são, em muitos casos, rotulados como “chilique”, tanto por médicos, quanto pelas próprias médicas. Novamente o machismo estrutural, que está igualmente na saúde.
Nas últimas duas décadas, em ensaios clínicos de doenças cardiovasculares a participação feminina não passou de 25%, embora as mulheres representem 40% da população com esse tipo de doença, me contou a presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, Maria Cristina Izar. Pesquisdores do European Heart Journal da Sociedade Europeia de Cardiologia se debruçaram sobre possíveis razões para a menor inclusão de mulheres. “O gênero e a região geográfica de quem
coordena o trabalho de pesquisa tem relação com a composição dos grupos. Observou-se que em ensaios cujos líderes são homens, mulheres são minoria. Em contrapartida, quando existe pelo menos uma mulher na liderança, a proporção feminina dobra”, relatou Cristina Izar.
Quando uma mulher nasce, ela recebe o sobrenome do pai que só é alterado quando ela se casa e “ganha” o sobrenome do marido. Para existir, uma mulher precisa de um homem. Já passou o tempo de pensarmos fora da caixa, como dizem por aí, e aqui estou chacoalhando a cadeira dos “meus amigos” de mesmo gênero. Cabe ao homem pedir desculpas, quando tromba com uma mulher nas ruas, cabe a nós nos levantarmos e aplaudirmos em pé quando uma cantora fala do prazer feminino, cabe aos líderes acadêmicos e estudiosos da saúde incluírem as mulheres nos ensaios clínicos, cabe a toda sociedade desmontar o machismo estrutural todos os dias do ano e não só em datas temáticas, como o Dia Internacional da Mulher.
Cabe a nós não submeter mais as mulheres à necessidade constate de reafirmar que o feminismo não tem a ver com odiar ou menosprezar os homens. O feminismo trata da igualdade de direitos. Não por acaso, mulher, ética e comunicação são doces palavras femininas.
Jornalista e escritor, sócio da DOC Press, autor de “O Médico e o Jornalista” da editora Doc.
* A opinião manifestada é de responsabilidade dos autores e não é, necessariamente, a opinião do IES